Você já se sentiu perdido diante de uma birra intensa do seu filho? Sem saber se acolhe, corrige ou se esconde no banheiro e chora você mesmo?
Respira fundo: você não está sozinho.
O que muitos pais veem como “birra” ou “manha” é, na verdade, uma tentativa — muitas vezes desorganizada — da criança expressar uma necessidade emocional. Na minha atuação clínica com crianças e famílias, percebo que os comportamentos mais desafiadores são também os mais ricos em informação. Isso porque toda criança comunica com o corpo e o comportamento aquilo que ainda não consegue colocar em palavras.
A birra, o choro intenso ou aquele comportamento que parece desproporcional, na verdade, pode ser uma manifestação de frustração, medo, cansaço ou desconforto que a criança ainda não aprendeu a nomear ou gerenciar.
Por isso, o papel dos pais vai muito além de conter o comportamento: envolve ajudar a criança a entender e regular as emoções que estão por trás daquilo. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, nem sempre ela está “testando limites”, tentando competir força com você ou testar sua paciência. Na verdade, ela pode estar pedindo ajuda da forma que consegue naquele momento, como se dissesse:
“Está demais para mim e não sei lidar com tudo isso. Me ajuda, por favor.”
O olhar da parentalidade consciente
É exatamente isso que a parentalidade consciente nos convida a enxergar. Ela nos convida a olhar o que está por trás do comportamento:
- O que essa criança está sentindo?
- O que ela está precisando?
- O que ela quer me comunicar com esse comportamento?
Assim, ao olhar para esse prisma, mudamos o foco de controlar para conectar, criando espaço para uma educação mais empática, segura e baseada em vínculo. Cabe adicionar que vínculo não se constrói apenas em momentos de paz, mas especialmente nas tempestades.
Por que isso é tão importante?
Uma criança que aprende a lidar com suas emoções desde pequena desenvolve habilidades que serão essenciais por toda a vida: autorregulação, empatia, comunicação emocional e resiliência. Ela aprende, com o exemplo dos pais, que sentimentos não são errados ou perigosos, mas partes naturais da experiência humana. E que tudo pode ser conversado e elaborado com carinho e segurança.
Por outro lado, quando a birra é vista apenas como um problema a ser contido — e não como uma expressão de uma necessidade — a criança pode internalizar a ideia de que suas emoções são inaceitáveis. Isso não só dificulta o vínculo com os pais, como também pode refletir futuramente em dificuldades de autoestima, relações interpessoais e expressão emocional.
Crianças emocionalmente seguras aprendem a nomear e regular seus sentimentos. E isso se constrói com pais que aprendem a se conectar mesmo (e principalmente) nos momentos difíceis.
6 atitudes que fazem a diferença
Aqui estão algumas estratégias práticas para lidar com esses momentos:
- Valide antes de corrigir Quando a criança está vivendo uma emoção intensa, o cérebro dela não está preparado para ouvir uma bronca ou uma lição. Primeiro, ela precisa ser acolhida. Dizer algo como “Eu entendo que você ficou bravo porque não conseguiu o que queria” é o primeiro passo para que ela se acalme e se sinta compreendida. Validar é reconhecer o que a criança sente, sem necessariamente concordar com o comportamento.
- Nomeie emoções Crianças pequenas ainda estão aprendendo a diferenciar o que estão sentindo. Quando os pais dizem “Isso é raiva”, “Você está frustrado” ou “Parece que você ficou triste com isso”, elas aprendem a identificar e nomear o que sentem. Isso reduz a intensidade emocional ao longo do tempo e promove o desenvolvimento da inteligência emocional.
- Mantenha uma rotina emocional Crianças precisam de previsibilidade para se sentirem seguras. Ter rituais fixos — como o momento da despedida, o banho relaxante antes de dormir ou o tempinho de conversa ao fim do dia — ajuda a organizar o mundo interno da criança. A rotina não precisa ser engessada, mas deve ter espaços consistentes para afeto e escuta.
- Use momentos de crise como oportunidade de vínculo Em vez de tratar a birra como algo que precisa ser apenas “apagado”, os pais podem enxergar ali uma oportunidade de ensinar habilidades socioemocionais. Frases como “Vamos respirar juntos?” ou “O que você acha que poderíamos fazer diferente da próxima vez?” ajudam a criança a refletir e crescer.
- Evite rotular comportamentos como “manha” ou “drama” Quando rotulamos as emoções das crianças, corremos o risco de invalidar sentimentos autênticos. Em vez disso, tente observar o que motivou aquele comportamento e o que ele revela sobre o mundo interno da criança. Respeito emocional é fundamental.
- Olhe para suas próprias emoções como pai/mãe Ser responsivo e presente exige autoconhecimento. Se você se percebe constantemente irritado, impaciente ou esgotado, vale a pena refletir sobre suas necessidades também. A parentalidade é um espelho que nos convida a crescer junto com nossos filhos.
Buscando caminhos mais leves
Quando os pais sentem que estão esgotados, sem recursos ou repetindo padrões que não funcionam, buscar apoio profissional não é sinal de fraqueza, mas de coragem.
A psicologia infantil e a orientação parental existem justamente para ajudar famílias a criarem caminhos mais leves e conscientes. Porque, no fim do dia, mais importante do que “criar filhos perfeitos” é construir relações saudáveis. E isso começa com pequenos gestos, todos os dias.
Sobre a autora
Ana Arruda é psicóloga infantil, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental na infância e adolescência e Orientação Familiar e Parental. Mentora de psicólogas que desejam atuar com o público infantil, atua também com orientação parental e dedica sua carreira a ajudar famílias a construírem relações mais conscientes e afetivas com seus filhos.
Para saber mais, acompanhe no Instagram: @psi_anaarruda

