Grande parte das pessoas gosta de ouvir e contar histórias. Desde muito cedo, as crianças demonstram isso de forma clara: pedem para ouvir o mesmo conto repetidas vezes, repetem falas, antecipam cenas e, muitas vezes, pedem que a história seja contada exatamente do mesmo jeito. Esse movimento, tão comum na infância, não é apenas um gosto ou uma preferência. É uma necessidade psíquica.
A criança não nasce com um cérebro pronto para compreender e regular suas emoções. Ao nascer, ela sente antes de pensar. Nos primeiros anos de vida, o cérebro ainda é imaturo, com predominância das estruturas mais primitivas, ligadas à sobrevivência e às emoções básicas. O bebê reconhece vozes, cheiros, ritmos e constrói sua sensação de segurança a partir da relação com quem cuida.
Nesse período inicial, o cérebro é altamente plástico. Ele se forma e se transforma a partir das experiências vividas, especialmente daquelas mediadas pelo vínculo, pela previsibilidade e pela repetição. Por isso, cantigas, histórias curtas, narrativas ritmadas e conhecidas fazem tanto sentido: elas oferecem contorno emocional e ajudam o sistema nervoso infantil a se organizar.
Com o passar do tempo, o cérebro começa a se diferenciar. A linguagem se expande, a imaginação ganha força e a criança passa a brincar simbolicamente. Entre os três e os cinco anos, a fantasia está em alta. Surgem medos imaginários, personagens ganham vida e o mundo interno encontra expressão no faz de conta. É nesse momento que as histórias entram de forma ainda mais significativa.
Segundo o psicanalista Bruno Bettelheim, os contos de fadas tradicionais possuem um profundo valor psicológico para o desenvolvimento emocional da criança. Para ele, essas narrativas permitem que conflitos universais, como medo, abandono, rivalidade, agressividade, culpa, amor e desejo, sejam vividos simbolicamente, de forma segura. O conto oferece um espaço protegido onde emoções intensas podem existir sem que a criança seja invadida por elas.
Vivi esse conhecimento na prática
Esse processo pode ser observado claramente na vida cotidiana. Durante o período da pandemia, por exemplo, vivi uma experiência muito marcante com minha neta, então com cinco para seis anos. Como muitos avós, fiquei fisicamente afastada dos filhos e netos por meses, e nosso contato acontecia apenas por chamadas de vídeo. Em determinado momento, minha filha me procurou preocupada: minha neta estava muito agitada, irritada, difícil de conter emocionalmente.
Decidimos, então, criar um ritual simples: todos os dias, contaríamos histórias uma para a outra. Histórias inventadas, histórias conhecidas, histórias misturadas com acontecimentos do dia. Minha neta mergulhou nessa proposta com entusiasmo. Criava narrativas cheias de fantasia, misturando personagens de desenhos, livros e imaginação própria. Fadas que eram princesas, dragões amigos de cachorros, piscinas com estrelas que se transformavam em caminhos para o céu.
Eu entrava nas histórias com ela, criando personagens, acompanhando os enredos e, aos poucos, também entrelaçando histórias da minha própria infância, da nossa família, de acontecimentos reais que ganharam forma de “causos”. Percebi que ela adorava ouvir essas histórias e, muitas vezes, pedia que fossem contadas novamente, como se precisasse revisitá-las.
Ao longo desses encontros, que duravam de uma a duas horas, algo muito importante acontecia: minha neta ia elaborando suas fantasias, seus medos e suas emoções, podendo nomeá-los de forma simbólica. Ao mesmo tempo, o vínculo entre nós se fortalecia profundamente. Hoje, aos 11 anos, essa relação de confiança permanece viva.
Essa experiência ilustra algo essencial: a criança constrói sua capacidade de autorregulação na relação. Um desenvolvimento neurológico saudável depende de vínculo, previsibilidade, escuta emocional e experiências simbólicas contínuas. As histórias oferecem exatamente esse espaço: um território seguro onde a criança pode sentir, imaginar e organizar seu mundo interno.
Os personagens dos contos não são apenas figuras externas. Eles representam partes do psiquismo da criança. Bruxas, monstros, madrastas, heróis e heroínas dão forma a emoções que ainda não podem ser plenamente nomeadas. Ao ouvir histórias, a criança reconhece seus sentimentos, valida sua experiência interna e percebe que não está sozinha no que sente.
As histórias ajudam a sustentar a vida emocional enquanto o cérebro e a psique ainda estão em formação. Elas oferecem à criança um território seguro onde sentimentos intensos podem existir, ser reconhecidos e organizados. Antes mesmo da criança compreender racionalmente o que vive, o conto já cumpre sua função: proteger, dar contorno e criar sentido.
Mas esse recurso simbólico não se esgota com o crescimento. Aquilo que ajudou a criança a organizar seu mundo interno permanece inscrito no corpo e na memória emocional ao longo da vida.
É por isso que, em determinados momentos da trajetória — especialmente nas fases de transição — as histórias retornam. Não mais para estruturar um psiquismo em formação, mas para acompanhar um psiquismo que precisa integrar sua própria história.
