Você já viu seu filho jogar tudo no chão, gritar sem parar ou entrar em colapso na saída de um supermercado e não soube o que fazer? Antes de chamar de “manha”, vale a pena entender o que está acontecendo no cérebro dessa criança.
A birra é uma forma de comunicação. A criança ainda não possui vocabulário emocional para dizer “estou frustrado”, “preciso de ajuda” ou “não consigo esperar”. Então, o corpo fala por ela.
Birra ou crise? Entenda a diferença
É fundamental compreender que não são a mesma coisa.
- A birra tem objetivo: A criança quer algo e usa o comportamento para conseguir.
- A crise (especialmente no autismo): É uma descarga neurológica. A criança não está no controle e não escolhe parar.
No autismo, uma das características centrais é a rigidez cognitiva: a dificuldade de mudar o foco, aceitar imprevistos ou lidar com transições. O cérebro autista cria rotas fixas de funcionamento e, quando algo quebra essa rota — mesmo algo pequeno, como trocar o caminho de casa —, a resposta pode ser intensa. Não é teimosia. É neurológico.
Some isso à sobrecarga sensorial de ambientes barulhentos, luzes fortes ou toques inesperados, e você entenderá por que a crise pode parecer desproporcional ao olhar de fora.
O que não funciona no momento do colapso
Repetir “para com isso”, dar sermão ou ceder apenas para acabar logo com a situação não ajuda. Nenhuma dessas respostas ensina algo novo. Pense assim: se alguém está se afogando, aquele não é o momento de ensinar a nadar. Primeiro, você tira a pessoa da água. Depois, ensina.
Com a crise é igual: contenha, acolha e reduza o estímulo. O ensinamento vem depois, quando a criança está regulada e o cérebro está disponível para aprender.
Estratégias que ajudam
Para lidar com esses momentos de forma eficiente, divida suas ações em três etapas:
- Antes da crise: Use avisos de transição. “Mais 2 minutos e a gente guarda.” “Primeiro o banho, depois o desenho.” A previsibilidade organiza o sistema nervoso.
- Durante a crise: Fale pouco. Reduza estímulos. Garanta a segurança. Fique perto sem pressionar.
- Depois da crise: Ensine. Mostre como pedir ajuda, como esperar e como se expressar.
Quando procurar avaliação especializada
Busque orientação profissional quanto antes se notar os seguintes sinais:
- Crises frequentes e com intensidade crescente;
- Risco de a criança machucar a si mesma ou a outras pessoas;
- Dificuldade persistente de comunicação.
“Seu filho não precisa de mais bronca. Ele precisa de direção. E direção é ensinada.” — Diz Dra. Thatyana Turassa
Material Complementar
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Referências Bibliográficas
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Biel, L.; Peske, N. Raising a Sensory Smart Child. New York: Penguin Books, 2009.
- Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied Behavior Analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020.
- Grandin, T.; Panek, R. O Cérebro Autista. Rio de Janeiro: Record, 2015.
- Prizant, B. M. et al. The SCERTS Model: A Comprehensive Educational Approach for Children with Autism Spectrum Disorders. Baltimore: Brookes Publishing, 2006.
- Schaaf, R. C.; Lane, A. E. Toward a Best-Practice Protocol for Assessment of Sensory Features in ASD. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 45, n. 5, p. 1380–1395, 2015.

