A cena se repete em milhões de casas brasileiras. Uma família reunida à mesa, mas cada membro imerso em sua própria tela. Pais e filhos compartilham o mesmo espaço físico, mas habitam universos digitais distintos.
Essa realidade, que parecia ficção científica há uma década, infelizmente tornou-se a normalidade. O que muitos não percebem é que essa desconexão física reflete uma desconexão emocional muito mais profunda, acarretando em uma geração inteira crescendo sem aprender as habilidades básicas de relacionamento humano.
De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) em 2024, 93% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam internet diariamente. O mais preocupante é que 67% deles relatam dificuldades em manter conversas presenciais sem consultar o celular.
Esses números não são apenas estatísticas, são sinais de alerta sobre como a tecnologia está moldando a forma como nos relacionamos.
Hiperconexão
Vivemos na era da hiperconexão, onde é possível conversar com pessoas do outro lado do mundo em tempo real. Aplicativos de mensagem, redes sociais e plataformas de vídeo prometem aproximar as pessoas. Porém, enquanto nos conectamos digitalmente, nos desconectamos emocionalmente daqueles que estão ao nosso lado.
A tecnologia está afastando fisicamente e tornando as pessoas menos capazes de ler e responder aos sinais emocionais que sustentam relacionamentos saudáveis.
“Crianças que passam mais de três horas diárias em telas apresentam dificuldades significativas em reconhecer expressões faciais, interpretar tom de voz e compreender nuances emocionais nas interações presenciais.” — Dra. Luciana Brites, psicóloga clínica especialista em desenvolvimento infantil
Outro fenômeno crescente merece atenção especial. Jovens adultos e adolescentes estão utilizando chatbots de IA para conversar sobre seus sentimentos, pedir conselhos sobre relacionamentos e até para validar suas emoções.
Embora a tecnologia ofereça disponibilidade 24 horas, ela não oferece o que um relacionamento humano genuíno proporciona, como empatia autêntica, presença real e vulnerabilidade compartilhada.
A geração que não sabe conversar
O sociólogo Sherry Turkle, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), conduziu pesquisas extensivas sobre como a tecnologia afeta nossas habilidades de comunicação. Em seu livro Reclaiming Conversation (2015), traduzido para o português como “Em Defesa da Conversa”, Turkle apresenta dados alarmantes.
Adolescentes que cresceram com smartphones têm 40% menos probabilidade de manter contato visual durante conversas e demonstram menor capacidade de empatia em relação a pessoas que não conhecem.
Mas o problema vai além da falta de habilidade; trata-se de uma questão de conforto. Conversar cara a cara exige vulnerabilidade. Exige que você se exponha, corra o risco de ser rejeitado ou incompreendido.
Em contrapartida, a tecnologia oferece uma alternativa, já que você pode editar suas mensagens, deletar o que não gostou e escolher exatamente o que quer dizer. Não há espaço para o silêncio desconfortável, para a gagueira nervosa ou para aquele momento em que você não sabe o que dizer.
Muitos jovens preferem a segurança da tela à incerteza do relacionamento humano. E quando são forçados a interagir presencialmente — como em uma entrevista de emprego, em um encontro romântico ou em uma apresentação escolar —, sentem-se paralisados. Eles não sabem como começar uma conversa, como manter o contato visual e como lidar com o silêncio.
O papel das mães
Nesse contexto desafiador, as mães emergem como figuras centrais na possibilidade de mudança. Não porque elas sejam as únicas responsáveis pela educação dos filhos, mas porque historicamente ocupam um papel privilegiado nos primeiros anos de vida, justamente quando as habilidades sociais e emocionais estão sendo formadas.
As mães que conseguem estabelecer limites saudáveis com a tecnologia desde cedo criam filhos mais resilientes emocionalmente e mais capazes de estabelecer relacionamentos significativos.
“Mães que conseguem estabelecer limites saudáveis com a tecnologia desde cedo criam filhos mais resilientes emocionalmente e mais capazes de relacionamentos significativos.” — Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva, pediatra, pesquisadora e autora de “Mentes Ansiosas”
Mas como fazer isso na prática? Como estabelecer esses limites em um mundo onde a tecnologia é onipresente e, muitas vezes, necessária para a educação escolar?
Estratégias práticas
- A tecnologia não é o inimigo: O recurso em si é neutro; o problema está no uso excessivo e descontrolado. Por isso, a abordagem não deve ser de proibição, mas de educação. As mães precisam ajudar seus filhos a entender que a tecnologia é uma ferramenta, e não um substituto para relacionamentos humanos.
- Modelar o comportamento desejado: Crianças aprendem observando. Se uma mãe passa a noite inteira no celular enquanto pede ao filho que estude sem distrações, a mensagem que fica é clara: as palavras não importam, apenas as ações. Pesquisa publicada no Journal of Family Psychology em 2022 demonstrou que pais que limitam seu próprio uso de tecnologia durante refeições e momentos familiares têm filhos 35% mais propensos a desenvolver habilidades sociais saudáveis.
- Criar espaços de conexão real: Isso significa refeições sem celulares e conversas genuínas onde o objetivo não é resolver um problema, mas simplesmente estar junto. Significa ouvir sem julgar, permitir silêncios e tolerar o desconforto de não saber o que dizer. Esses momentos, aparentemente simples, são onde as crianças aprendem que relacionamentos humanos têm valor — um valor que nenhuma notificação de rede social pode oferecer.
- Ensinar a reconhecer emoções: Se uma criança está acostumada a pedir a um chatbot de IA para interpretar seus sentimentos, ela nunca desenvolverá a capacidade de autoconhecimento emocional. As mães podem ajudar perguntando: “Como você se sentiu quando isso aconteceu?” e, mais importante, esperando pela resposta, sem oferecer soluções imediatas, permitindo que o filho explore suas próprias emoções.
- Estabelecer acordos, não regras: Adolescentes respondem melhor a negociações do que a imposições. Uma mãe que senta com seu filho e diz: “Vamos pensar juntos sobre como a tecnologia pode nos ajudar sem nos prejudicar”, está ensinando pensamento crítico e autonomia — habilidades que serão muito mais úteis do que qualquer aplicativo.
O custo da inação
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou em 2023 que os transtornos de ansiedade e depressão em adolescentes aumentaram 25% na última década, com correlação direta ao aumento do uso de redes sociais e tecnologia. Além disso, casos de isolamento social voluntário — ou seja, jovens que preferem interações digitais às presenciais — crescem exponencialmente.
A falta de ação cria uma geração de adultos que não sabe como manter um relacionamento, como resolver conflitos presencialmente e como oferecer e receber apoio emocional genuíno. Esses adultos enfrentarão dificuldades em relacionamentos amorosos, profissionais e familiares.
Um chamado à ação
As mães não precisam ser perfeitas e não precisam eliminar completamente a tecnologia da vida de seus filhos. Isso seria irreal e contraproducente. O que precisam fazer é ser intencionais.
Precisam reconhecer que estão em uma batalha pela atenção de seus filhos contra bilhões de dólares investidos em engenharia de comportamento. E precisam estar dispostas a perder algumas batalhas, como permitir que o filho use tecnologia, para ganhar a guerra: criar seres humanos capazes de amar, de se relacionar e de estar presentes.
Porque, no final, nenhuma IA consegue abraçar. Nenhum algoritmo consegue oferecer o conforto de uma mãe que está realmente ali, presente e ouvindo. E é exatamente isso que nossas crianças mais precisam aprender: que a conexão humana, com toda sua imperfeição e desconforto, é infinitamente mais valiosa do que qualquer conexão digital.
O futuro dos relacionamentos humanos não será determinado pela tecnologia. Será determinado pelas escolhas que fazemos hoje, especialmente as mães que decidem estar presentes, mesmo quando é mais fácil estar conectado.
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