Na vida adulta, sobretudo a partir dos 40 anos, o cérebro passa a buscar menos explicações e mais coerência interna. O que antes foi vivido, mas não plenamente sentido ou nomeado, pede espaço para elaboração. Para muitas mulheres, esse período marca um movimento profundo de revisão, escuta e reconexão consigo mesmas.
É nesse momento que os contos reaparecem, agora como companheiros de travessia. Se, na infância, eles ajudaram a criança a crescer, na maturidade ajudam a mulher a integrar o que viveu.
A transformação silenciosa da mente
Nessa fase, o cérebro passa por uma reorganização. A mente deixa de priorizar a velocidade e o acúmulo de informações para buscar sentido e integração emocional. É comum que surjam perguntas mais profundas sobre a jornada:
- O que vivi até aqui?
- O que precisei calar para seguir em frente?
- Que partes de mim ficaram pelo caminho?
- O que ainda pede cuidado?
Essas perguntas não indicam fragilidade; elas indicam maturidade.
O peso das experiências e o recurso do símbolo
Muitas mulheres atravessaram a maternidade, o trabalho, os cuidados com o próximo e diversas renúncias, frequentemente colocando suas necessidades em segundo plano. Essas experiências ficam registradas no corpo e na memória.
Neste cenário, os contos surgem como um recurso terapêutico potente. Eles oferecem uma linguagem simbólica para vivências que nem sempre puderam ser nomeadas no momento em que aconteceram.
“Ao ouvir um conto, uma imagem pode tocar profundamente. Isso acontece porque o corpo guarda memórias emocionais que antecedem a palavra.”
A analista Clarissa Pinkola Estés demonstra como os contos tradicionais falam diretamente à psique feminina, abordando temas como intuição, limites, força e transformação. Essas narrativas funcionam como mapas simbólicos para a mulher se reconhecer.
Integrar para seguir com gentileza
Na vida adulta, ouvir histórias não é voltar à infância; é permitir que emoções antigas encontrem um lugar seguro para existir. Em espaços terapêuticos ou coletivos, os contos criam um campo onde não é preciso explicar ou justificar. Basta escutar, e o corpo responde.
Os benefícios dessa prática na maturidade incluem:
- Reconhecer dores e escolhas sem julgamento;
- Sustentar a vida emocional com mais verdade;
- Reorganizar a história interna sob um novo sentido.
Depois dos 40, as histórias deixam de ser apenas lembranças. Elas não ensinam o que fazer, mas ajudam a sustentar a caminhada com mais profundidade e gentileza. Algumas histórias não servem para mudar o passado — servem para integrar quem nos tornamos.
