A criança nunca diz em voz alta que precisa escolher um lado.
Mas o comportamento dela denuncia esse cálculo o tempo inteiro.
Ela evita elogiar demais um dos pais com medo de magoar o outro.
Guarda uma notícia boa sem saber com quem comemorar primeiro.
Policia-se para não parecer que está do lado errado.
No consultório, a psicóloga infantil Ana Beatriz Arruda atende toda semana crianças em processo de separação dos pais e observa um padrão que se repete quase sempre em silêncio.
A criança não fala abertamente sobre o conflito de lealdade.
Ela apenas vai, aos poucos, se fechando para proteger os sentimentos de quem ama.
A Visão da Terapia Cognitivo-Comportamental
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ajuda a entender por que isso acontece.
Todo comportamento tem uma função, e o silêncio da criança, ou a cautela excessiva ao falar de um dos pais, quase sempre serve para evitar um resultado temido: magoar, decepcionar ou perder o amor de um deles.
O pensamento automático mais comum nessa fase costuma ser:
“Se eu gostar muito de ficar com um, o outro vai sofrer” — pensa a criança silenciosamente.
“Se eu contar o que fizemos, alguém vai ficar triste comigo” — formula em suas ações.
A criança não formula isso em palavras adultas, mas age como quem carrega esse cálculo o tempo inteiro.
E o que sustenta esse cálculo, na maioria das vezes, não é a separação conjugal em si.
É o que a criança observa e escuta ao redor dela depois que a separação acontece.
É por isso que a forma como os adultos conduzem o processo pesa tanto, e é por isso que existem atitudes concretas capazes de fazer diferença real.
5 Atitudes Essenciais para Proteger a Saúde Emocional dos Filhos
- Contar juntos, na mesma conversa, sempre que possível: a forma como a notícia chega já molda como a criança vai processar tudo depois. O ideal é que ambos estejam presentes com uma fala alinhada, como: “Nós decidimos que vamos morar em casas separadas, mas os dois continuam sendo seus pais pra sempre, e isso não muda”. Detalhes do conflito adulto e culpas devem ficar de fora, deixando claro que a decisão foi dos adultos, nunca dela;
- Nunca falar mal do outro genitor na frente da criança: mesmo comentários pequenos são registrados como uma cobrança silenciosa de lealdade. A criança ouve a crítica como uma exigência de concordância, o que a leva a se calar;
- Não pedir que a criança relate a rotina da outra casa: transformar o filho em informante sobre o ex-parceiro retira dele o papel de filho e o coloca como mensageiro, gerando uma sobrecarga emocional invisível;
- Manter rotina e previsibilidade nas trocas de convivência: combinados claros sobre dias, horários e avisos prévios de mudanças trazem segurança. A previsibilidade é um dos fatores mais protetores durante o divórcio;
- Afirmar verbalmente que amar os dois não é traição: o óbvio precisa ser dito em voz alta e repetidas vezes, assegurando: “Você pode amar seu pai e sua mãe do tamanho que quiser, ao mesmo tempo, sem que isso machuque ninguém”.
Leveza e Cuidado Emocional na Separação
Vale um esclarecimento importante: a separação dos pais sempre vai doer um pouco para a criança, e isso não é o que precisa ser evitado.
O que pesa de verdade, e o que realmente pode ser evitado, é o peso extra de sentir que precisa cuidar dos sentimentos dos adultos além dos próprios.
“A criança não sofre pela separação em si. Sofre pelo peso extra de sentir que precisa cuidar dos sentimentos dos adultos, além dos próprios” — diz Ana Beatriz Arruda.
Leveza, nesse contexto, não é ausência de dor.
É a retirada do fardo que não deveria caber nos ombros de uma criança.
Dra. Ana Beatriz Martins de Arruda
Psicóloga






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