O som da tosse no meio da madrugada tem o poder de despertar qualquer mãe em questão de segundos. Você levanta, vai até o quarto do seu filho, senta ao lado da cama e começa a pensar no que pode fazer para aliviar o desconforto dele. Nessa hora, é natural que venham à cabeça aqueles conselhos que ouvimos desde pequenas. Chá de alho, xarope de beterraba, cebola cortada perto da cama. São receitas que passam de geração em geração, de mãe para filha, carregadas de boas intenções.
Mas será que esses métodos realmente funcionam? E mais importante, será que são seguros? O que parece inofensivo pode, em alguns casos, representar riscos sérios para a saúde das crianças. Por isso, o portal Mães & Filhos foi atrás de informações baseadas em evidências científicas para ajudar você a separar o que é mito do que é verdade quando o assunto é aliviar os sintomas respiratórios dos pequenos.
A cebola cortada no quarto funciona?
Essa é uma das crenças mais antigas e difundidas entre as famílias brasileiras. A ideia de que colocar uma cebola cortada ao lado da cama da criança pode aliviar a tosse noturna passa de boca em boca há décadas. Muitas mães juram que funciona e que percebem melhora no quadro dos filhos após adotar a prática.
Mas o que a ciência diz sobre isso? A cebola é um alimento rico em compostos sulfurados e polifenóis, substâncias que realmente possuem propriedades expectorantes e anti-inflamatórias. O problema é que esses benefícios só são aproveitados pelo organismo quando a cebola é ingerida, ou seja, quando esses compostos passam pelo sistema digestivo e são absorvidos pelo corpo. A simples presença do vegetal cortado no ambiente, liberando odores, não tem capacidade comprovada de tratar uma infecção respiratória ou acalmar os brônquios.
Pelo contrário. O cheiro forte liberado pela cebola pode irritar as vias respiratórias, especialmente em crianças que já têm predisposição a problemas como rinite alérgica ou asma. Em vez de aliviar, a inalação desses gases sulfurados pode piorar a tosse e desencadear crises respiratórias.
Um caso real serve de alerta para todas as mães. Em 2019, a revista Crescer noticiou a história de Juliana Ishiara, que colocou cebolas cortadas no quarto do filho para aliviar a tosse. Em poucos minutos, a criança começou a ter uma crise respiratória grave. O esforço para tossir era tamanho que ele vomitou e ficou muito cansado. A mãe o levou às pressas para o hospital, e o menino precisou ser internado na Unidade de Terapia Intensiva. O pediatra Felipe Monti Lora, do hospital Sabará, explicou que o odor da cebola atuou como um irritante das vias aéreas, provocando broncoespasmo em uma criança que já tinha predisposição.
A conclusão dos especialistas é a de que colocar cebola cortada no quarto da criança para aliviar a tosse é um mito, não tem respaldo científico e pode apresentar riscos à saúde.
O mel realmente alivia a tosse?
Diferente da cebola no quarto, o mel é um dos poucos remédios caseiros que tem respaldo da ciência. Uma revisão da Biblioteca Cochrane, considerada uma das fontes mais confiáveis do mundo em evidências médicas, analisou estudos sobre o uso do mel para tosse aguda em crianças. A conclusão foi que o mel é mais eficaz do que o placebo e do que o salbutamol (um medicamento que abre as vias aéreas) para diminuir os sintomas da tosse.
Outro estudo publicado na revista Pediatrics, uma das mais respeitadas da área, acompanhou 300 crianças entre 1 e 5 anos. Os pesquisadores dividiram os participantes em quatro grupos e descobriram que aquelas que receberam mel antes de dormir tiveram uma melhora significativa na tosse noturna e na qualidade do sono, tanto delas quanto dos pais.
No entanto, há uma regra de ouro que não pode ser ignorada. O mel nunca deve ser oferecido para crianças menores de 1 ano de idade. Isso porque ele pode conter esporos da bactéria Clostridium botulinum, que o sistema digestivo imaturo dos bebês não consegue eliminar. O resultado pode ser o botulismo infantil, uma doença grave que afeta o sistema nervoso e pode levar à morte.
Para crianças maiores de 1 ano, o mel pode ser um aliado. Uma colherzinha antes de dormir ajuda a lubrificar a garganta irritada e reduz a frequência da tosse. Mas sempre com moderação e de preferência com orientação do pediatra.
A lavagem nasal é a técnica mais recomendada
Se existe uma técnica que tem respaldo unânime dos pediatras e das sociedades médicas, é a lavagem nasal com soro fisiológico. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a prática como uma das formas mais eficazes e seguras de aliviar os sintomas respiratórios em crianças.
A lavagem nasal atua de forma mecânica. O soro fisiológico ajuda a remover o excesso de muco, as impurezas e os agentes infecciosos que ficam retidos nas narinas. Quando o nariz fica limpo, a criança respira melhor, consegue se alimentar com mais facilidade e a tosse provocada pelo gotejamento pós-nasal diminui significativamente.
A técnica é simples e pode ser feita em casa. Para bebês, usa-se uma seringa sem agulha com soro fisiológico morno, aplicando suavemente em cada narina. Para crianças maiores, pode-se usar um conta-gotas ou sprays próprios. A quantidade de soro varia conforme a idade. Para crianças de 2 a 6 anos, por exemplo, recomenda-se de 10 a 20 mL de soro por narina.
Estudos mostram que a lavagem nasal também ajuda a prevenir complicações como otites, sinusites e bronquiolites, já que remove as secreções que podem acumular e servir de ambiente para bactérias.
Outros cuidados que realmente ajudam
Além da lavagem nasal, algumas medidas simples fazem diferença no conforto da criança durante um quadro respiratório:
- Hidratação: Oferecer água, sucos naturais e água de coco com frequência ajuda a manter as secreções mais fluidas, facilitando a eliminação.
- Umidificação: O uso de um umidificador de ar ou uma bacia com água em local seguro ajuda a manter a umidade das mucosas, evitando que a garganta fique ressecada e irritada.
O que a ANVISA alerta sobre xaropes caseiros
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) emite alertas constantes sobre os riscos de administrar preparações caseiras sem orientação profissional. O grande problema dos xaropes feitos em casa é a falta de padronização na dosagem e o risco de contaminação durante o preparo. Muitas receitas caseiras têm concentração altíssima de açúcar, o que não é recomendado para crianças.
Outro ponto de atenção é o uso de óleos essenciais e inalações com ervas fortes. Embora pareçam naturais e inofensivos, esses produtos podem causar reações alérgicas, queimaduras nas vias aéreas ou intoxicação, especialmente em crianças pequenas.
Quando procurar o pediatra
A maioria dos quadros respiratórios em crianças é causada por vírus e tem um ciclo natural de cura, que costuma durar entre 5 e 7 dias. No entanto, alguns sinais indicam que é hora de buscar avaliação médica:
- Febre persistente que não cede com antitérmicos comuns;
- Dificuldade para respirar (quando a criança faz muito esforço com os músculos do pescoço ou as costelas ficam marcadas a cada inspiração);
- Prostração excessiva;
- Recusa em ingerir líquidos;
- Chiado no peito.
O pediatra é o único profissional capacitado para diferenciar um resfriado comum de uma pneumonia, de uma bronquiolite ou de uma crise de asma.
“A informação de qualidade é a melhor aliada das mães. Saber o que funciona, o que não funciona e o que pode oferecer riscos faz toda a diferença na hora de cuidar dos nossos filhos.” – Diz o portal Mães & Filhos.
Aviso Importante — Conteúdo Informativo
As informações contidas neste artigo foram elaboradas com base em fontes científicas, experiência profissional e práticas reconhecidas na área da saúde e educação. No entanto, este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo, não devendo ser interpretado como aconselhamento médico, diagnóstico ou prescrição de tratamento.
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