Palestra abordou cyberbullying, uso de telas, responsabilidade digital e os impactos da internet na rotina de crianças e famílias
A Maple Bear Marília recebeu, no dia 21 de maio, a psicóloga Laís Fontinelli para uma palestra sobre convivência e conflitos na era digital. O encontro colocou em pauta um assunto que já entrou de vez na rotina das famílias e falou sobre a forma como crianças e pré-adolescentes têm se relacionado com celulares, redes sociais, jogos on-line e outros espaços virtuais.
A proposta foi discutir um cenário que hoje faz parte do dia a dia dentro e fora da escola. Se antes boa parte das relações acontecia só no ambiente presencial, agora elas também passam pela tela. Conversas entre colegas, desentendimentos, exclusões, brincadeiras e até agressões circulam por grupos de mensagens, plataformas de vídeo, jogos e redes sociais.
Foi a partir desse ponto que a palestra seguiu, tratando de temas como:
- Cyberbullying;
- Empatia e pertencimento;
- Limites no uso da tecnologia;
- Responsabilidade digital;
- Impacto das telas nas relações.
Laís Fontinelli é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, especialista em Psicologia Escolar, ex-coordenadora do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, além de escritora premiada e consultora da Sesame Street Workshop em projetos voltados à infância e à educação.
Durante a palestra, ela falou de maneira direta sobre situações que já fazem parte da vida de muitas famílias, principalmente daquelas com filhos na faixa dos 7 aos 11 anos, idade em que o acesso ao celular começa a aparecer com mais força nas conversas de casa.
Quando o conflito também vai para o on-line
Ao longo da fala, a psicóloga tratou o conflito como algo próprio da convivência. Ele aparece dentro de casa, no trabalho, entre amigos e, claro, na escola. A diferença é que, hoje, muita coisa não termina quando a aula acaba ou quando cada um vai para sua casa. O que começa presencialmente pode continuar no ambiente digital, ganhar novos desdobramentos e alcançar mais gente em pouco tempo.
Esse ponto apareceu de forma clara ao longo da palestra. Uma discussão entre colegas, por exemplo, pode sair da escola e seguir em grupos de mensagens. Uma exclusão pode se tornar pública. Um comentário feito no impulso pode circular, ser compartilhado e permanecer disponível por muito mais tempo do que numa conversa presencial. Quando isso acontece, a forma de lidar com o problema também muda.
A palestra também abriu espaço para uma leitura sobre o papel da escola nesses episódios. Nem sempre a resposta vem no ritmo que pais e mães gostariam, justamente porque a mediação exige ouvir versões, entender o contexto e avaliar a melhor forma de conduzir cada situação. Para as famílias, muitas vezes o olhar parte da experiência individual do filho. Já a escola precisa lidar com o coletivo, com a escuta de todos os envolvidos e com as consequências daquele conflito dentro da convivência escolar.
Tela, celular e a infância encurtada
Outro assunto que ganhou espaço foi a exposição precoce às telas e aos celulares. Para muitas famílias, esse tema deixou de ser algo distante. Os filhos estão crescendo, os pedidos por aparelho próprio começam a aparecer, o acesso a vídeos e aplicativos vira rotina e, junto com isso, vêm as dúvidas sobre o momento certo, os limites e a forma de acompanhar esse processo.
Durante a palestra, Laís chamou atenção para a adultização precoce das crianças. A observação feita por ela foi simples: a internet tem pouca margem para erro quando o acesso acontece sem supervisão.
Às vezes, uma busca aparentemente inocente ou um clique fora do caminho já é suficiente para levar a conteúdos inadequados para aquela idade. Nessa lista entram:
- Pornografia;
- Incentivo ao consumo exagerado;
- Padrões estéticos irreais;
- Estímulos ligados à exposição do corpo;
- Referências que encurtam fases da infância.
A discussão não ficou no campo da teoria. O ponto levantado foi que criança tem seu tempo. Precisa brincar, aprender brincando, testar o mundo aos poucos, conviver, construir referências e valores no ritmo da própria idade. Quando entra cedo demais em conteúdos, linguagens e estímulos do universo adulto, esse processo muda — e muda num momento em que ela ainda não tem repertório emocional para lidar com muita coisa que aparece na tela.
Não antecipe o celular
Ao falar sobre tecnologia, a palestra não foi para o lado de demonizar a internet nem de defender um afastamento completo desse universo. A discussão caminhou para reconhecer que o digital faz parte da vida atual, mas que isso não significa antecipar etapas.
“Não antecipar, evitar.” — Laís Fontinelli
Na prática, a orientação foi adiar ao máximo o acesso pessoal ao celular e, quando esse acesso já existir, não tratar o aparelho como território livre. O acompanhamento dos adultos apareceu como ponto central.
Segundo o que foi apresentado, esse monitoramento precisa ser efetivo, especialmente até que a criança tenha maturidade suficiente para compreender riscos, limites e consequências do que faz on-line. A recomendação mencionada durante a palestra foi de acompanhamento integral até, pelo menos, os 14 anos. Isso passa por:
- Saber o que o filho acessa;
- Conhecer com quem ele conversa;
- Identificar que tipo de conteúdo consome;
- Monitorar como se comporta nesses espaços.
Mais do que fiscalizar, a ideia é acompanhar de perto, orientar e construir combinados claros.
O tempo de tela também mexe com a rotina da casa
Outro trecho da palestra tratou de uma questão que costuma aparecer em muitas famílias: o tempo gasto no celular, tanto por crianças quanto por adultos. A observação feita foi que, aos poucos, o aparelho vai ocupando o espaço de outras atividades do dia a dia. Entra no lugar da leitura, do estudo, do descanso, da organização da rotina e até da convivência dentro de casa.
A conversa, nesse momento, deixou de olhar só para o comportamento infantil e também colocou os adultos dentro do debate. Isso porque o uso constante do celular pelos pais acaba influenciando a dinâmica da família e o exemplo que circula dentro de casa. Se a criança cresce num ambiente em que todo mundo está sempre olhando para a tela, essa lógica tende a virar o normal.
Foi nesse ponto que a palestra puxou uma reflexão mais ampla sobre presença. Estar no mesmo ambiente nem sempre significa estar junto de fato. Muitas vezes, a família divide o mesmo espaço, mas cada um está concentrado no próprio aparelho. A longo prazo, isso afeta a conversa, a escuta, a rotina e a própria qualidade das relações.
Cyberbullying e responsabilidade digital
Entre os temas abordados, o cyberbullying apareceu como um dos mais delicados. A diferença, nesse caso, está no alcance. Uma humilhação, uma ofensa, uma montagem, a exposição de uma conversa ou a exclusão de um grupo pode ganhar proporções muito maiores quando circula no ambiente on-line.
No presencial, o episódio costuma ficar restrito a quem estava ali. Na internet, ele pode se espalhar rápido, chegar a outras pessoas e continuar disponível por muito tempo. Isso amplia o impacto sobre a criança e exige atenção tanto da família quanto da escola.
A palestra também trouxe a ideia de que o ambiente digital não suspende a responsabilidade sobre o que se faz. O que é dito na rede, no grupo ou no jogo continua tendo efeito na vida real. Por isso, a discussão sobre empatia e pertencimento apareceu ligada à necessidade de ensinar limites, respeito e noção de consequência desde cedo.
Movimento Desconecta entrou na conversa
No fim do encontro, também foi citado o Movimento Desconecta: Rede e Famílias, iniciativa que propõe uma discussão sobre o uso consciente da tecnologia no ambiente familiar. A sugestão foi que pais e responsáveis conheçam a proposta para ampliar o debate iniciado na palestra e buscar mais informações sobre a relação entre infância, telas e convivência.
Ao trazer o tema para dentro da escola, a Maple Bear Marília abriu espaço para uma conversa que já bate à porta de muitas casas. O acesso ao mundo digital acontece cada vez mais cedo, e com ele chegam dúvidas, conflitos e escolhas que não ficam só com a escola nem só com a família. O assunto passa pelos dois lados.
No fim das contas, a palestra girou em torno disso: entender que a convivência, hoje, também passa pela internet — e que acompanhar esse processo virou parte da rotina de quem educa.




