O retrato da paternidade brasileira carrega hoje uma contradição difícil de ignorar. Levantamento divulgado em agosto de 2026 mostrou que oito em cada dez brasileiros, mais precisamente 81%, consideram alta ou muito alta a importância da paternidade ativa no desenvolvimento infantil.
No mesmo levantamento, porém, metade dos entrevistados afirmou acreditar que os pais da atualidade estão menos presentes na criação do que os das gerações anteriores.
A sociedade valoriza o pai presente e, ao mesmo tempo, reconhece que ele ainda não ocupa o lugar que essa valorização sugere.
O reconhecimento do papel paterno, vale dizer, não é retórica.
Estudos científicos têm associado o envolvimento do pai desde os primeiros dias à segurança emocional das crianças.
Pesquisa citada pela Câmara dos Deputados, a partir de evidências internacionais, aponta que crianças com pais participativos desde o nascimento desenvolvem maior sensação de apoio e segurança emocional.
O envolvimento paterno também aparece ligado à redução do estresse infantil, transmitindo à criança a confiança necessária para explorar o mundo ao redor.
Um estudo brasileiro publicado na revista Psicologia Escolar e Educacional, com 97 casais de pais e mães e 20 professoras, verificou que, quanto maior a frequência de comunicação entre pai e filho e a participação do pai nos cuidados, nas atividades escolares, culturais e de lazer, menor a ocorrência de problemas de comportamento na criança.
O contraste da licença de cinco dias
O fosso entre o valor declarado e a prática aparece com clareza quando se compara o que a lei oferece a mães e pais.
Enquanto a licença-maternidade é um direito mandatório e universal, com afastamento médio de 17,6 semanas, a licença-paternidade constitucional brasileira segue em cinco dias.
O pesquisador do IPEA Marcos Hecksher e colegas chamaram atenção justamente para isso em artigo de 2025, intitulado “Dados sobre a falta de dados da licença-paternidade no Brasil”.
Além de curto, o período de ausência do pai é pouco mensurado, o que dificulta qualquer política pública baseada em evidência.
O tema está em discussão no Congresso. O Projeto de Lei 3.057/2021 propõe ampliar a licença-paternidade para trinta dias e criar uma licença parental que permita aos pais compartilhar parte do tempo de afastamento hoje reservado às mães.
O custo da mudança, segundo estudo publicado em periódico científico, é baixo em comparação com os benefícios:
- Ampliar a licença para vinte dias custaria cerca de R$ 100 milhões por ano no cenário mais provável;
- Empresas que aderem ao programa Empresa Cidadã, a título de comparação, já estendem o benefício para vinte dias;
- As mães vinculadas a esse mesmo programa têm direito a 180 dias concedidos de afastamento.
O impacto dessa diferença atravessa a casa inteira. Quando o pai volta ao trabalho cinco dias depois do nascimento, grande parte da sobrecarga materna dos primeiros meses continua concentrada na mãe.
A ciência, porém, sugere que a presença do pai logo no início é justamente o que consolida o vínculo afetivo e abre caminho para uma divisão do cuidado mais equilibrada ao longo de toda a infância.
Onde mora o desequilíbrio
A desigualdade entre mães e pais não se restringe aos primeiros meses.
Pesquisa do IPEA sobre parentalidade e divisão do trabalho doméstico registrou uma evidência contundente: o nascimento de um filho tem impacto muito mais pronunciado na carreira das mulheres do que na dos homens.
No Brasil, o percentual de pais que trabalham praticamente não se altera antes ou depois do nascimento dos filhos, enquanto a trajetória profissional das mães sente o golpe da maternidade de formas que a paternidade dificilmente provoca.
Esse descompasso aparece também na rotina cotidiana. A mãe continua sendo a primeira pessoa acionada pela escola, a que remarca a consulta, a que organiza a mochila, a que lembra da vacina.
Mesmo em lares em que o pai participa de boa vontade, a organização desse cuidado costuma recair sobre a mulher, gerando uma carga mental materna invisível de planejar, vigiar e lembrar que dificilmente entra nas estatísticas.
Não por acaso, a literatura científica registra um aumento do envolvimento paterno e a busca por uma divisão mais igualitária, mas também aponta que essa mudança avança devagar.
Revisões integrativas sobre paternidade contemporânea descrevem pais que desejam participar, atravessados, ao mesmo tempo, por jornadas de trabalho longas, pela cultura do provedor e pela falta de modelos masculinos de cuidado na própria história familiar.
A intenção existe. Falta estrutura para que ela se transforme em prática cotidiana.
O que a presença muda na vida das crianças
Quando a presença paterna deixa de ser exceção e vira rotina, as consequências positivas aparecem em vários planos:
- Na escola: a participação paterna nas atividades escolares e culturais aparece associada a menos problemas de comportamento e a um desenvolvimento social mais tranquilo;
- No lar: o pai que conversa, que brinca, que acompanha as tarefas e que se envolve nos cuidados transmite à criança a mensagem de que ela é importante para ambos;
- Na dinâmica familiar: quando o pai assume de verdade uma parte do cuidado, a mãe deixa de carregar sozinha o peso da criação e ganha espaço para ser mais do que a responsável por tudo.
A divisão equilibrada do cuidado, nesse sentido, não beneficia apenas a criança.
Ela beneficia o casal, a saúde mental materna e, no fim das contas, a própria relação entre pai e filho, que se constrói no fazer cotidiano e não apenas nos fins de semana.
Um novo padrão em construção
O pai que hoje busca a criança na escola, que prepara o jantar, que acompanha a reunião escolar e que sabe o nome do pediatra representa uma mudança silenciosa e real.
Ele ainda disputa espaço com a jornada de trabalho, com os estereótipos e com a herança de uma criação em que o cuidado era assunto exclusivo de mulher.
Mas ele existe, e a criança percebe.
Talvez o dado mais revelador do levantamento de 2026 não seja o número daqueles que consideram a paternidade importante, seja a distância entre esse reconhecimento e a prática.
A sociedade brasileira já sabe o valor do pai presente.
O próximo passo é transformar esse valor em dias de licença, em divisão de tarefas, em presença nas manhãs de segunda-feira e em conversas na mesa do jantar.
O pai que quer participar existe. Falta apenas que o mundo ao redor pare de pedir licença para deixá-lo entrar.
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