A cena é clássica e, para muitas, a imagem da “felicidade materna”: o bebê está no berço, dormindo, e o quarto está cheio de gente. Avós bobos, tias corujas, amigos trazendo presentes. O ambiente está repleto de amor, conversas animadas e o cheiro doce de um recém-nascido.
No entanto, lá no fundo, atrás daquele sorriso cansado, você sente um abismo de solidão. Você olha para todos, mas parece que ninguém te vê. O foco é o bebê; você se sente apenas o “recipiente que já entregou a encomenda”.
Se você já sentiu essa solidão na maternidade no meio de uma festa, saiba: você não está ficando louca, e não é ingratidão. O que você está vivenciando é um fenômeno biológico, psicológico e social profundo, que a ciência finalmente começou a dar nome: matrescência.
Como enfermeira obstétrica, neonatal e terapeuta, e também como mãe de três crianças com idades e necessidades diferentes, convido você a entender a engenharia por trás desse sentimento e, mais importante, a descobrir como sobreviver a ele com sanidade e acolhimento.
O que a Ciência nos Diz: A Revolução da Matrescência
O termo matrescência foi cunhado pela antropóloga Dana Raphael nos anos 70, mas só recentemente ganhou força nos estudos de neurociência e psicologia. Ele descreve a transição profunda da mulher para a maternidade — um processo tão intenso e transformador quanto a adolescência, só que mais rápido e com menos paciência social.
Enquanto a adolescência é vista como uma fase de crescimento e descobertas, a matrescência é muitas vezes vista apenas como uma “fase difícil” que deve ser superada rapidamente. Mas a ciência mostra que o seu cérebro mudou, Ana. O corpo, a mente, a identidade… tudo está passando por um reboot.
1. A Tempestade Neurohormonal e a Solidão Biológica
Neurobiologicamente, o cérebro da mãe sofre uma poda sináptica massiva. O foco torna-se obsessivamente o bebê, um mecanismo de sobrevivência para garantir o cuidado.
Mas essa mesma poda e a flutuação hormonal — o famoso baby blues — podem gerar uma sensação de alienação e desconexão com o mundo “lá fora”. Você sente que ninguém consegue entender a intensidade do que você está vivenciando — e, biologicamente, é verdade. Você está em um estado de vigília e conexão que mais ninguém naquele quarto está.
2. O Luto da Identidade Anterior
A solidão no quarto cheio muitas vezes é o luto pela mulher que você era. Quem era a Ana antes da enfermagem, antes de ter o portal? Quem é essa mulher que agora depende de outra pessoa para tudo?
Quando as pessoas olham para o bebê e ignoram a mãe, elas validam a sua maior angústia:
“Será que eu ainda existo ou agora sou só ‘A Mãe’?” — Ana Tanus
Soluções Práticas: A Visão de uma Mãe de 3 (que também é Terapeuta)
Entender a ciência ajuda a tirar a culpa, mas não resolve o dia a dia. Como mãe de três, sei que a solidão não diminui no segundo ou terceiro filho; ela apenas se transforma. Com o primeiro, é a solidão do medo; com o terceiro, é a solidão da sobrecarga.
Aqui estão estratégias práticas que uni da minha experiência e do meu background terapêutico para ajudar você a reconectar consigo mesma e com os outros:
1. Estabeleça uma Rede de Apoio Ativa, Não “Visitas de Plateia”
O quarto está cheio de gente que quer “ver o bebê”. Mude essa dinâmica. Antes do bebê nascer (ou agora, se ele já chegou), envie uma mensagem carinhosa e honesta:
“Estamos adorando as visitas, mas, como o puerpério é intenso, quem quiser vir nos ver, por favor, venha preparado para ajudar com algo prático: trazer uma refeição, colocar uma roupa na máquina ou segurar o bebê por 15 minutos para que eu possa tomar um banho demorado.” — Ana Tanus
Pessoas que só querem ver o bebê e esperam ser servidas aumentam a solidão porque você se sente ainda mais uma cuidadora sobrecarregada, e não uma mulher acolhida.
2. Crie Pequenas Âncoras de Identidade
A pedagoga em mim sabe que precisamos de rituais. A terapeuta sabe que precisamos de ancoragem. Escolha uma única coisa que lhe dê prazer e que não tenha nada a ver com o bebê. Pode ser:
- O “ritual do café”: Preparar um café de qualidade, sem pressa, e tomá-lo em silêncio por 5 minutos antes de começar o dia.
- A “leitura-relâmpago”: Ler duas páginas de um livro de ficção enquanto o bebê dorme, em vez de arrumar a casa.
- O “aroma-refúgio”: Usar um óleo essencial de Lavanda (Lavandula angustifolia) ou Laranja Doce (Citrus sinensis) que mencionei na matéria anterior. Um microrritual de inalação de 1 minuto pode mudar o estado emocional da mãe exausta.
Essas âncoras lembram a você que a Ana ainda está lá.
3. Fale a Verdade (Pelo Menos para Uma Pessoa)
Quando alguém no quarto perguntar “Tudo bem?”, evite o automático “Tudo ótimo, ele é um anjo!”. Escolha uma pessoa de confiança e diga a verdade:
“Não estou bem. Me sinto muito sozinha, mesmo com tanta gente aqui. Preciso de um abraço.” — Ana Tanus
A matrescência precisa de validação. Esconder o sentimento apenas o torna mais forte. Como terapeuta, sei que a cura começa quando nomeamos o problema.
4. Entenda o “Efeito Caleidoscópio” (Minha Maior Lição de Mãe de 3)
Com o primeiro filho, a solidão é um buraco negro. Com o terceiro, ela é um caleidoscópio. Você se sente sozinha no meio de um turbilhão de demandas diferentes: o bebê precisando de colo, o do meio querendo atenção, o mais velho precisando de ajuda com o dever de casa, o portal precisando de conteúdo.
A solução? Pare de tentar equilibrar todos os pratos. Entenda que, em cada momento, apenas um prato será o mais importante. E, às vezes, o prato mais importante é você.
Peça ajuda ao parceiro ou à rede de apoio:
“Vou passar 15 minutos lá fora respirando. Ninguém me chame, a menos que a casa esteja pegando fogo.” — Ana Tanus
O corpo da mãe precisa se reabastecer para continuar sendo a co-reguladora que o bebê precisa.
A matrescência é a maior jornada de autoconhecimento e transformação que uma mulher pode viver. Não tente acelerar o processo ou voltar a ser quem você era; essa mulher não existe mais.
A nova você está sendo forjada agora, no meio do choro, das mamadas e, sim, dessa solidão no quarto cheio. Mas saiba que você não está sozinha nessa jornada. Nós, do portal Mães e Filhos, estamos aqui para caminhar com você.
Referências para leitura complementar:
- RAPHAEL, Dana. The Tender Gift: Breastfeeding. New York: Schocken Books, 1973. (Primeiro uso do termo “matrescência”).
- STERN, Daniel N. O Nascimento de uma Mãe. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. (Análise clássica da psicologia do puerpério).
- BAXENDALE, S. et al. The ‘Poda Sináptica’ Materna e o Desenvolvimento do Apego. Journal of Neuroendocrinology, 2023. (Estudo recente sobre as mudanças estruturais no cérebro da mãe).
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Diretrizes para Cuidados Pós-Natais de Mães e Recém-Nascidos, 2022. (Protocolos sobre a importância do apoio social e saúde mental materna).
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