Muitas mães são as primeiras a acordar e as últimas a dormir.
Não porque querem, mas porque precisam.
Porque o cuidado não espera.
Porque alguém depende delas o tempo todo.
A maternidade, especialmente a maternidade atípica, aquela vivida por mães de crianças com deficiências, condições raras ou necessidades específicas, exige presença integral. Exige atenção constante, corpo disponível, mente alerta e um coração que raramente descansa. É viver em estado de prontidão, mesmo quando o cansaço já passou do limite.
E, nesse processo silencioso, algo vai acontecendo aos poucos: a mulher começa a se colocar sempre por último. Seus limites vão sendo empurrados, dia após dia, como se sempre fosse possível aguentar só mais um pouco.
Eu sei disso porque vivo essa realidade todos os dias.
Durante muito tempo, minha vida girou exclusivamente em torno do cuidado. Terapias, médicos, adaptações, crises, silêncios e pequenos avanços que, para nós, significavam vitórias imensas. E, enquanto eu cuidava, organizava, sustentava e lutava, quase ninguém perguntava como eu estava. Não por falta de carinho, mas porque existe um silêncio social em torno de quem cuida.
Porque existe uma expectativa invisível sobre a mãe:
que ela dê conta.
que ela seja forte.
que ela aguente.
que ela não caia.
Mas a verdade é outra.
Quem cuida também cansa.
Quem cuida também chora escondido.
Quem cuida também precisa ser cuidado.
Nas salas de espera das terapias, entre uma chamada e outra, vi muitas mães carregando histórias inteiras de solidão, abandono emocional e ausência de rede. Mães exaustas, tentando sustentar tudo sozinhas, sem com quem dividir o peso, sem com quem deixar seus filhos para simplesmente respirar por algumas horas.
Foi ali, naquele espaço de silêncios compartilhados e olhares cansados, que algo começou a se mover dentro de mim. Eu entendi que não era apenas sobre os nossos filhos. Era sobre nós. Sobre mulheres que estavam cuidando de tudo e de todos, enquanto elas mesmas iam sendo esquecidas. A pergunta “quem cuida de quem cuida?” deixou de ser apenas uma reflexão e passou a ser um chamado.
Foi desse lugar que nasceu o Forte e Corajosas – Mães Atípicas. Não como um projeto perfeito, nem como uma solução pronta, mas como um espaço possível. Um lugar de escuta, acolhimento e pertencimento. Um lugar onde a mãe não precisa explicar tudo. Onde o choro não constrange. Onde o cansaço não é visto como fraqueza. Onde a força não é exigência, mas consequência do cuidado compartilhado.
Cuidar de quem cuida não é luxo.
Não é privilégio.
É necessidade.
Quando uma mãe é acolhida, ela se fortalece.
Quando ela se fortalece, ela cuida melhor.
E quando ela não caminha sozinha, ela encontra fôlego para continuar.
Se você é uma mãe que cuida de um filho, de uma casa, de uma rotina intensa saiba de algo muito revelador: você importa. Seu cansaço é legítimo. Sua história merece acolhimento. E você não precisa ser forte o tempo todo.
Às vezes, tudo o que uma mulher precisa para seguir em frente é não estar sozinha.
