Os brinquedos que conversam, lembram do que a criança gosta e respondem com palavras que simulam carinho já fazem parte da realidade de muitas famílias brasileiras, e chegam às prateleiras com promessas de aprendizado, companhia e diversão.
Diante desse avanço, a Sociedade Brasileira de Pediatria divulgou em outubro uma nota de orientação e alerta para pais, responsáveis e pediatras sobre como escolher e acompanhar os efeitos dessas tecnologias junto às crianças e aos adolescentes.
O objetivo do documento é simples e direto: reduzir os riscos de exposição indevida em uma faixa etária que ainda está construindo a própria noção de realidade.
A entidade destaca que a pergunta que os pais devem fazer não é apenas o que o brinquedo faz, mas também:
- Como ele funciona;
- Quais informações coleta;
- Para que esses dados são utilizados;
- Se incorpora mecanismos adequados de proteção à criança.
É uma mudança importante de olhar, pois desloca a conversa do encantamento do produto para o entendimento do que está por trás dele.
O que muda quando o brinquedo tem inteligência artificial
A inteligência artificial pode oferecer oportunidades reais de aprendizagem, comunicação e acessibilidade, e há casos em que ela amplia o acesso de crianças com deficiência a formas de brincar e de se expressar.
O alerta não é contra a tecnologia em si, e sim contra o uso sem critério.
Sistemas de IA generativa reconhecem voz e imagem, recordam informações, adaptam respostas e mantêm conversas que não são inteiramente pré-programadas, o que significa que o brinquedo pode responder algo imprevisível a uma criança que não tem repertório para interpretar aquilo.
Entre os riscos apontados estão:
- A exposição a conteúdos inadequados à idade;
- O perfilamento de dados;
- Vieses ou discriminação algorítmica;
- Mecanismos capazes de influenciar comportamentos.
Uma revisão publicada na Pediatrics em 2026 também chama atenção para algo que pais e mães percebem na prática: a possibilidade de a criança atribuir à IA o papel de amiga ou cuidadora, desenvolvendo uma percepção equivocada daquela relação.
As recomendações práticas da SBP
A orientação da SBP é de cautela na oferta de brinquedos com IA, sobretudo os que utilizam IA generativa, mantêm conversas abertas, coletam dados pessoais e simulam amizade, cuidado ou apoio emocional.
“Quando essas funcionalidades não trazem benefício claro, ou quando o funcionamento e os mecanismos de proteção carecem de transparência, a orientação é priorizar produtos e brinquedos sem esses recursos” – Diz a Sociedade Brasileira de Pediatria.
Na hora da compra, vale verificar:
- Se o produto tem câmera ou microfone;
- Se precisa de internet para funcionar;
- Quais dados armazena, por quanto tempo e com quem compartilha;
- Se existe controle parental;
- Se o conteúdo pode ser ajustado à idade da criança.
Também é útil observar se o brinquedo informa de forma clara que se trata de um sistema automatizado, exigência que dialoga com o Decreto nº 12.880/2026, segundo o qual sistemas conversacionais acessíveis a crianças e adolescentes devem ser transparentes quanto ao seu caráter sintético e automatizado.
O lugar da brincadeira na rotina
A nota da SBP lembra que brincar é uma necessidade do desenvolvimento e que brinquedo, brincar e entretenimento não são sinônimos.
É pelo brincar que a criança explora o mundo, experimenta, cria, movimenta o corpo, desenvolve habilidades psicomotoras e linguagem, resolve problemas e aprende a compartilhar, esperar, negociar e lidar com frustrações.
Por isso, uma pergunta ajuda muito na decisão, que é saber que lugar essa experiência ocupa na rotina em relação:
- Ao sono;
- Ao movimento;
- À brincadeira livre;
- À leitura;
- Ao contato com a natureza;
- À convivência familiar.
Ainda existem incertezas sobre os efeitos à saúde mental e comportamental de longo prazo dessas novas formas de interação, e é justamente essa lacuna que exige cuidado.
“A incerteza científica não significa ausência de riscos e reforça a necessidade de proteção adequada à infância e à adolescência” – Avalia a Sociedade Brasileira de Pediatria.
Fontes:
- Sociedade Brasileira de Pediatria
- Agência Brasil.
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