Acabaram as férias escolares e você está ali, olhando para a casa que parece ter sido atingida por um furacão, com aquela sensação de cansaço que vai muito além do físico. Se você se reconhece nessa descrição, quero te dizer algo que pode soar estranho no primeiro momento: você é privilegiada.
Sei que pode parecer contraditório falar de privilégio quando você mal consegue lembrar se escovou os dentes hoje ou se aquela pilha de roupas na cadeira do quarto vai continuar ali até o próximo século. Mas me permita explicar por que acredito nisso de coração.
Vamos começar sendo honestas: a maternidade é pesada. Não há romantização que sustente a realidade de carregar um mundo inteiro nas costas. Quando nos tornamos mães, assumimos a responsabilidade gigantesca de suprir todas as necessidades de um ou mais seres humanos – e isso vai muito além de comida, roupa e teto.
Somos responsáveis pelo bem-estar emocional, pelo desenvolvimento cognitivo, pela formação de caráter, pela segurança física e psicológica. Somos enfermeiras, professoras, psicólogas, cozinheiras, motoristas, animadoras de festa e, nas horas vagas, tentamos ser nós mesmas. É muita coisa para uma pessoa só, não é?
Durante as férias, essa responsabilidade fica ainda mais intensa. São semanas de entretenimento constante, de “mãe, estou com tédio” repetido em loop, de negociar tempo de tela, de inventar atividades, de mediar brigas entre irmãos. É normal se sentir esgotada.
O esgotamento mental que você sente tem nome e é reconhecido pela ciência. Estudos mostram que o “burnout parental” é uma condição real que afeta milhões de pais ao redor do mundo. Uma pesquisa publicada no Journal of Clinical Medicine em 2021 revelou que o esgotamento parental está associado a sintomas depressivos, ansiedade e problemas de sono. O estudo, conduzido com mais de 1.500 pais, mostrou que esse tipo de exaustão pode levar a consequências sérias para a saúde mental e física dos cuidadores.
Outro estudo importante, publicado na revista Child Abuse & Neglect em 2019, demonstrou que o burnout parental pode afetar negativamente a qualidade do relacionamento entre pais e filhos, criando um ciclo de estresse que impacta toda a família. A neurociência também nos ajuda a entender o que acontece no nosso cérebro. Pesquisas da Universidade de Harvard indicam que o estresse crônico da maternidade pode alterar estruturas cerebrais relacionadas à memória e ao processamento emocional, explicando por que às vezes nos sentimos mentalmente “desligadas” ou com dificuldade de concentração.
Agora vem a parte que pode parecer contraditória, mas que carrega uma verdade profunda: em meio a todo esse caos e cansaço, você está vivendo algo extraordinário. Você está tendo o privilégio de acompanhar de perto o desenvolvimento dos seres humanos que você mais ama no mundo.
Pense comigo: quantas pessoas passam a vida inteira sem experimentar esse tipo de amor incondicional? Quantas não têm a oportunidade de ver um sorriso banguela se transformar em gargalhadas espontâneas? De presenciar as primeiras palavras, os primeiros passos, as primeiras descobertas?
Você está sendo testemunha privilegiada de pequenos milagres diários. Quando seu filho aprende algo novo, quando demonstra empatia, quando supera um medo, quando simplesmente te abraça sem motivo aparente – você está ali, presente, fazendo parte dessa história.
Sei que nos dias difíceis parece que o tempo não passa, que aquela fase vai durar para sempre. Mas a verdade é que o tempo voa de uma forma assustadora. Daqui a 30 anos, quando você olhar para trás, será que não sentirá falta desse caos gostoso?
Imagino você, no futuro, lembrando das manhãs em que acordava com um pé na sua cara e outro no seu estômago porque alguém decidiu que sua cama era mais confortável. Ou das tardes em que a sala virava uma fortaleza de almofadas e você era convocada para ser a princesa em perigo.
Talvez você sinta saudade até daqueles momentos em que pensava “não aguento mais”, porque eles faziam parte de uma época única e irrepetível da sua vida e da vida dos seus filhos.
Importante deixar claro: reconhecer que a maternidade é um privilégio não significa minimizar as dificuldades ou fingir que está tudo bem quando não está. Você pode estar grata e exausta ao mesmo tempo. Pode amar profundamente seus filhos e ainda assim precisar de um tempo para si mesma.
É fundamental cuidar da sua saúde mental, buscar ajuda quando necessário e lembrar que ser mãe não significa se anular completamente. Você continua sendo uma pessoa com necessidades, sonhos e limites.
Então, se você está aí se sentindo esgotada depois dessas férias intensas, respire fundo. Reconheça que o que você sente é válido e normal. Mas também se permita enxergar a beleza no meio da bagunça.
Você está criando memórias que seus filhos levarão para a vida toda. Está sendo o porto seguro deles, o lugar onde eles sabem que podem ser exatamente quem são. Está moldando pequenos seres humanos que um dia vão fazer a diferença no mundo.
E quando a saudade bater – e ela vai bater -, você vai se lembrar de que, sim, foi difícil, mas foi também o período mais rico e significativo da sua vida. Porque no final das contas, o amor que você sente por esses pequenos seres é o que torna todo o cansaço valer a pena. Você é privilegiada, mesmo nos dias em que não se sente assim. E tudo bem se hoje não for um desses dias – amanhã sempre há uma nova oportunidade de enxergar a magia no meio da correria.
