Com o aumento da expectativa de vida, o desafio já não é apenas viver mais anos, mas garantir qualidade, autonomia e sentido ao longo do tempo.
Por Esther Vilharba
Fisioterapeuta, especialista em gerontologia pela Faculdade de Medicina da USP-SP, mestranda em Educação em Saúde pela Faculdade de Medicina de Marília. Fundadora do Instituto Longevidade, atua no desenvolvimento de soluções para o envelhecimento com foco em autonomia, inclusão e impacto social. Idealizadora da Virada da Longevidade® e sócia do INSCE Reabilitação.
Nos últimos anos, viver mais deixou de ser uma exceção para se tornar uma realidade cada vez mais presente. No Brasil, o aumento da expectativa de vida já é um dado consolidado, mas ele traz consigo uma pergunta essencial: estamos preparados para viver melhor?
A chamada “nova longevidade” não diz respeito apenas à quantidade de anos vividos, mas à forma como esses anos são experienciados. Trata-se de uma transformação profunda, que impacta não só a saúde, mas também as relações familiares, o mercado de trabalho e a organização da sociedade como um todo.
Viver mais não é, necessariamente, viver melhor
Os avanços da medicina, da tecnologia e das condições de vida contribuíram significativamente para o aumento da longevidade. No entanto, isso não garante, por si só, qualidade de vida.
“Hoje, o grande desafio não é apenas adicionar anos à vida, mas vida aos anos.” – Diz Esther Vilharba
É nesse contexto que ganha força o conceito de longevidade como uma abordagem que valoriza autonomia, bem-estar e participação ativa na sociedade ao longo de todo o processo de envelhecimento.
Uma nova forma de envelhecer
O envelhecimento deixou de ser sinônimo de dependência. Cada vez mais, pessoas com 50, 60 ou 70 anos permanecem ativas, produtivas e socialmente engajadas. Esse movimento está diretamente relacionado ao conceito de capacidade funcional, que prioriza:
- A manutenção da independência;
- A habilidade de realizar atividades cotidianas;
- O exercício do protagonismo e escolhas pessoais;
- A preservação de vínculos afetivos.
Mais do que ausência de doenças, envelhecer bem significa continuar fazendo escolhas e mantendo o papel de sujeito da própria história.
Famílias mais longas, relações mais complexas
Com o aumento da longevidade, as estruturas familiares também se transformaram. Hoje, é cada vez mais comum a convivência entre três ou até quatro gerações. Essa nova configuração traz tanto desafios quanto oportunidades:
- Desafios: Surgem questões relacionadas ao cuidado e à possível sobrecarga familiar.
- Oportunidades: Ampliam-se as trocas intergeracionais, capazes de fortalecer vínculos e promover aprendizado mútuo.
Nesse cenário, a forma como diferentes gerações se relacionam com o envelhecimento torna-se um fator decisivo para a qualidade de vida das pessoas idosas.
Trabalho não tem mais idade, mas ainda enfrenta barreiras
Apesar de viverem mais e, muitas vezes, em melhores condições, pessoas com mais de 50 anos ainda encontram dificuldades para se manter ou retornar ao mercado de trabalho. O etarismo — preconceito baseado na idade — permanece como uma barreira silenciosa, que limita oportunidades e desvaloriza trajetórias.
Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de adaptação através de:
- Requalificação profissional;
- Inclusão digital;
- Novos modelos de trabalho flexíveis.
Saúde além da doença
Na perspectiva da longevidade, saúde vai muito além do tratamento de enfermidades. O foco se desloca para a prevenção, o movimento e a manutenção da autonomia.
Pilares essenciais para um envelhecimento saudável incluem práticas corporais, estímulos cognitivos, participação social e acompanhamento profissional adequado. Mais do que tratar, é preciso preparar o corpo e a mente para viver bem por mais tempo.
Estamos prontos para envelhecer como sociedade?
Se, por um lado, as pessoas estão vivendo mais, por outro, muitas cidades ainda não estão preparadas para essa realidade. Algumas das barreiras críticas incluem:
- Calçadas inadequadas e falta de acessibilidade;
- Serviços públicos fragmentados;
- Ausência de políticas eficazes de inclusão.
Pensar a longevidade é, também, repensar o planejamento urbano, os sistemas de saúde e as estratégias de integração social.
Um novo olhar sobre o envelhecimento
A longevidade é, sem dúvida, uma das maiores conquistas da sociedade contemporânea. No entanto, ela nos impõe um desafio igualmente grande: o de ressignificar o modo como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos ao longo da vida.
Mais do que um fenômeno demográfico, viver mais exige uma transformação cultural. Exige que indivíduos, famílias, instituições e governos assumam o compromisso de construir uma sociedade que valorize todas as idades. No fim, a questão central não é apenas quanto tempo vamos viver, mas como escolhemos viver esse tempo.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Relatório Mundial de Envelhecimento e Saúde. Genebra: OMS, 2015.
- Organização Mundial da Saúde. Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030. Genebra: OMS, 2020.
- Alexandre Kalache. Envelhecimento Ativo: um marco político em resposta à revolução da longevidade.